domingo, 4 de novembro de 2007

LIGAÇÃO

Triiiiimmm. O telefone toca. Corro para atendê-lo. Derrubo quase tudo que está no meu caminho. Triiiiimmm. Eu sei que é ela pedindo desculpas. Pedindo pra voltar. Márcia é tão previsível. Sei que vai dizer que me ama. Putz!! Nunca imaginei que a minha casa era tão grande. Triiiiiimmmm. Atendo ofegante.

- Arf... Alô? Alô? Arf...
- Boa noite! Eu gosstaria de poder estar falando com o senhôr-r Rober-r-to Pompeu.
- Ah. É. Sou eu.
- Senhôr-r Rober-r-to, meu nome é Tatiana, estou falando em nome dos cartões de crédito Seu Crédito, e tenho uma ofer-r-ta imper-rdível para o senhôr-r.

Paro por alguns instantes, e me questiono por que essas meninas que oferecem cartão de crédito, falam tudo igual. Até parece pastor daquela igreja lá.

- Olha, obrigado, mas eu não tenho interesse.
- Mas senhôr-r Rober-r-to, o senhor ainda não ouviu a nossa propossta. E garanto ao senhôr-r que, ela é imper-rdível.
- Minha filha, eu não quero. E você ainda está ocupando o meu telefone. Tô esperando uma ligação importantíssima. Tchau!
- Mas sen...

Click. Tive que desligar. Eles são insistentes demais. Volto para a cozinha. Tenho que terminar de fazer minha janta.
Triiiiimmm... Caráca!!! Agora é ela!!! Eu sei que é. Consigo sentir isso. Márcia, Márcia. Eu sabia que ela não ia agüentar ficar muito tempo sem mim. Triiiimmm. Sei que tenho defeitos, mas também tenho ótimas qualidades. Porra, eu não chego nunca a esse telefone. Acho que vou comprar um sem fio. Nota mental: Comprar um fone sem fio, ou então, emagrecer. Triiiimmmmm...

- Arf... Arf... Alô?
- Boa noite! Por favor, o senhor Roberto Pompeu.
- Sou eu. Mas se for cartão, eu já vou avisando, não quero.
- Não senhor. Não se trata de cartão. Aqui é da empresa de cobrança. É que o senhor está em débito com a loja de calçados Pé Descalço, e estou entrando em contato com o senhor para ter uma posição quanto à data de pagamento.
- Ahn, bem... Segunda-feira eu pago. Putz!! Cês aí trabalham até dia de domingo e uma hora dessas, é? Coitados.
- Pois é. Então, posso lançar essa informação no nosso sistema, senhor Roberto? Amanhã o senhor efetuará o pagamento, certo?
- Pode sim.
- Ok, então. Desde já, pedimos desculpas pelo incômodo e agradecemos a sua compreensão.
- Ok. Tchau!
- Tch...

Click. Não tenho tempo para ouvir o seu “tchau”, meu amigo. Volto para cozinha. Ela ainda não ligou, mas eu sei que vai ligar. Ah, se vai! Márcia, Márcia. Sempre foi dependente de mim, fico só imaginando o quanto deve estar sofrendo. Hmm... A comida está tão cheirosa. Acho que vou colocar mais um pouquinho de pimenta. Ela adorava esse prato, só não gostava da quantidade de pimenta que eu colocava. Hum. Acho que uma pitadinha disso também vai dar um “tchan” a mais. Melhor limpar essa mesa. O que será que ela está fazendo agora? Com certeza criando coragem pra me ligar. Márcia é tão previsível. Pronto, mesa limpa! Agora isso aqui vai para o fogão. Já, já, ela liga.
Triiiiiiiiiimmmm. Triiiiimmmmm. Ai, ai, ai... Agora é ela. Droga de panela! Ah, esquece, quando voltar, eu a apanho e limpo o chão. Nossa, será se eu já comentei que nunca tinha prestado atenção o quanto esta casa é grande? Triiiiiimmm. Já vai, já vai. Ô casa grande!! Triiimmmm. Nota mental: Comprar um fone sem fio, ou então, emagrecer. Nota mental da Nota mental: Parar de falar sozinho. Ainda me internam por causa disso. Triiiimmmm. Atendo. Não falo, eu grito.

- ALÔÔ??
- Ai, não grita! Quem tá falando?
- Como assim, “quem tá falando”? Você quer falar com quem?
- Me passa aí pra Renata, vai.
- Caráca!!! Cê ligou errado, colega.
- E foi? Qual é o número aí?
- Com certeza não é o número que você deseja, pois aqui não tem nenhuma Renata.
- Mas você é muito bruto, viu?
- E você bem que poderia ir à merda!!
- Ah, vá...

Click. Não tenho tempo para ouvir desaforos. Cozinha, aqui vou eu. Cacete!! Porra de tanta sujeira nesse chão!!! Vassoura, pá, e lá vamos nós. Ela tá demorando a ligar. Deve bem estar pensando que eu vou ligar pra ela. Rá! Não mesmo. Quem está com saudade é ela, e não eu. Ainda bem que ficou um pouquinho na panela. Dá pra aproveitar esse restinho. Opa! Já tá na hora de tirar a carne do forno. Hmmm... Se ela estivesse aqui, ia ficar com água na boca. Márcia, Márcia. Acho que vou preparar esse prato, quando ela voltar. Mas primeiro, ela terá que ligar pedindo desculpas. Coitadinha. Deve tá morrendo de saudades. Márcia, Márcia. Rá!
Triiiiiiiiiiiimmm. Putaquiupariu!!! E lá vamos nós, novamente. Ela se deu mal. Resolveu me ligar justamente na hora que eu tô mal-humorado. Triimmm. Azar o dela. Afinal, poderia ter ligado antes. Triiiimmm. Ah, eu vou, mas vou sem pressa. Triiimmm...

- Oi?
- Oi, meu amor!!
- Ah, oi mamãe.
- Tudo bom, bebê?
- Sim mamãe, tá tudo bem.
- E por que essa voz tão entediada? É por que tá falando comigo, é?
- Claro que não, mamãe.
- Você fica um tempão sem dar notícias, aí quando quero saber de você, fica assim, todo indiferente.
- Não mamãe. Eu não tô indiferente.
- Claro que tá! É isso mesmo. Trate a sua mãe desse jeito. Depois que eu me “for”, queria voltar só pra ver a sua cara de remorso por não ter me amado enquanto podia.
- Mãe. É claro que amo a senhora. Só tô falando assim porque... sei lá. Acho que tô cansado. É isso, tô cansado.
- Em pleno domingo? Cê não faz nada no domingo, como é que pode estar cansado?
- Ah mãe, eu não sei. Apenas estou. Pronto.
- Tá bom, então. Vou te deixar descansar. Não quero ser um empecilho na sua vida. Não quero que chegue amanhã cansado no trabalho, e depois vai dizer que não pôde descansar porque a sua mãe não deixou. Tchau!
- Mãe, é clar...

Tu-tu-tu-tu-tu... Putz!! Desligou na minha cara!!! Ai, ai... Amanhã ligo pra ela. Voltando à cozinha. Trrrrimmm. Epa!! Ufa! Ainda bem que não cheguei a sair daqui. Triiimmm...

- Pronto.
- A Renata, faz favor.
- Caceta!!!! Não tem nenhuma Renata aqui, seu retardado!!! Grrrr...

Click. INFERNO!!! CARAMBA!!!! PUTAQUIUPARIUUU!!!! Vou arrancar a porra desse fio! Não quero mais saber de cacete de ligação nenhuma!! Ela que vá pro inferno!!! Nem que venha coberta de ouro, eu vou querer!! E eu sei que ela tá morrendo de saudade. POIS QUE MORRA!!!! QUE MORRA, MÁRCIA!!!


Enquanto isso, do outro lado da cidade, em uma boate.


- E aí Márcia, cê pensa em voltar pro Roberto?
- Nem morta, minha filha. Tô muito bem solteira. Aliás, tô muito bem, beijando várias bocas!! hahahaha...
- hahahahahaha... Mas falando sério... Cê não sente nem um pouquinho de saudade dele?
- Só quando preciso carregar algo pesado. rsrsrsrs...
- Como você é má! rsrsrsrs... Mas ele é um cara legal, bonito.
- É verdade. Mas por falar em bonito, olha só, aqueles gatos dando mó bandeira pra gente. Vamos lá?
- Só se for agora.
- Hoje vou me esbaldar!!!

4 comentários:

Laíse disse...

huahuahuhauhua!

bem feito pro roberto >=)

Taina disse...

eu acolho o roberto, mas eu daria um tiro nesse telefone... porque eu ODEIO telefones, ainda mais os que tocam.. e pior ainda, os que tocam domingo!!!!!! :((((

se eu fosse o roberto teria me trancado no quarto e me amarrado na cama afim de não fazer nenhuma bobagem... nem ligar, porque ia levar um fora e ficar muito pior do que tava. Morrendo de saudades da Márcia. =/ eu acolho esse roberto. ô!

Nanda® disse...

kkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
Diiiiiiiiil
Tive que rir muuuuuuito!!!!!

Aqui em casa o telefone toca assim todos os dias!

Quase ficamos doidos!

E eu acolho o Roberto tb!
Tadinho dele!

Laíse disse...

tadinho nada, fica chamando a marcia de previsivel, acha que ela faz tudo o que ele quer. assim não dá, não!